Primeiros passos no mundo da prostituição
Rebeca Raso Prazeres
Mestranda em Educação, Gênero e Igualdade
Universidade de Santiago de Compostela
Na Espanha, tive a oportunidade de inserir-me numa organização que trabalha com mulheres em situação de prostituição. Aconteceu por acaso. Nunca havia trabalhado ou estudado esse tema, tampouco era o meu foco de interesse quando cheguei neste país. Saí do Brasil com a ideia de aprofundar meus estudos em educação e gênero sob uma perspectiva ambientalista
No entanto, deparei-me com uma realidade latente e marginal; muito além do que imaginava. Impressionou-me a quantidade de imigrantes que exercem esse ofício. Fiquei ainda mais espantada quando me deparei com o grande número de brasileiras entre as imigrantes; estas vindo de uma mesma região, senão, de uma mesma cidade Goiânia.
Não me permiti outra solução, a não ser mergulhar nesse mundo. E quanto mais adentro, mais questões me intrigam. O tema ainda está verde em minha cabeça. Novos ramos não se cansam de surgir dessa árvore tão complexa que é a prostituição, com raízes tão profundas no patriarcado. Mas, apesar de grande e antiga, a prostituição parece que não ser vista pela sociedade.
Por isso, o meu intuito neste primeiros escritos é de buscar levantar todos os ramos que me deparei para clarear meus passos nesse campo e enxergar as fontes que a nutrem.
Começo tocando na relação que se estabelece entre migração e prostituição. Essa foi a primeira surpresa que tive ao me deparar com as diferentes nacionalidades das mulheres. O número de imigrantes exercendo a prostituição supera os 75% na Espanha de acordo com as instancias polícias deste país1. Esse fenômeno é evidente e estão documentados em vários artigos que discutem a prostituição em países tidos como desenvolvidos (países da Europa ocidental e Estados Unidos). Parece que os “contos de fadas” continuam a impulsionar milhares de mulheres de países “pobres” aos países “ricos” em busca de uma vida melhor, de encontrar o “príncipe encantado” em terras distantes ou de conseguir levantar muito dinheiro em pouco tempo para realizar seus sonhos.
Por traz dessas migrações estão as redes sociais que facilitam este trânsito. Aí temos diversos caminhos possíveis para chegar até aqui. Entre esses existem as redes de tráfico de pessoas, as redes sociais de familiares e parentescos, os grupos sociais, além de outros. Essas redes também podem atuar conjuntamente tornando os caminhos e rotas cada vez mais complexas.
Diante disso, pergunto: as mulheres vem enganadas? Elas são traficas? Elas vem por vontade própria? Vem sabendo que vão trabalhar na prostituição? Sabem que podem ter uma dívida alta à pagar? Sabem as condições de trabalho? Recebem bem? Tem cafetões por trás delas? Para todas essas perguntas têm respostas “sim” e “não”. A realidade é muito diversa. Não se pode generalizar. As histórias de vida são múltiplas.
E quando chegam aqui, o que acontece? Há, essa já é uma nova página da história que também não é una. Vai depender do caminho que percorreu, a rede que a trouxe e as suas condições físicas e psicológicas.
A maioria chega sem os famosos “papéis”, a permissão para residir e trabalhar no país. Isso é um dos temas que as deixam em maior posição de vulnerabilidade. Pois não ter “papéis” extrai da pessoa diversos direitos essenciais como estudar, trabalhar, circular pelas vias, abrir uma conta no banco, alugar um apartamento, entre outras. Ou seja, a qualquer momento a polícia pode pará-la na rua e ao verificar que não tem a permissão para estar no país leva-a detida, correndo o risco de ser deportada e sofrer todas as consequências que uma deportação resulta. Esse estado de irregularidade obriga a essas mulheres a se inserirem num círculo viciosos da clandestinidade e da dependência de terceiros, que muitas vezes são redes de exploração.
O uso de álcool, tabaco e drogas ilícitas é muito frequente no mundo da prostituição. O seu uso pode inicia-se porque os clientes só aceitam fazer o programa se ela estiver drogada ou por incitação do dono do clube, ou do proxeneta ou porque necessita da droga para trabalhar, pois sem ela se sente incapaz de fazê-lo, seja por vergonha, moral, religião da qual acredita que julga incorreto a profissão, ou por milhares de outros motivos.
A questão religiosa é uma outra vertente a ser melhor estudada. Ainda não tive acesso a nenhum estudo que tocasse nesse assunto. Percebi que a maioria das mulheres tem uma religião, são católicas, evangélicas, muçulmanas. A maior parte das brasileiras são evangélicas. Religião essa, igual que as demais, proíbe a prostituição e a vê como algo diabólico em alguns casos. As mulheres levam consigo essa culpa, de serem pecadoras, terem algo diabólico no corpo, vivendo em contradição que, muitas vezes, as levam a terem problemas psicológicos e de auto-estima importantes.
Um outro tema que surgiu foi o das relações amorosas. Muitas prostitutas, ao contrario do que pensava, tem uma relação amorosa estável, são namorados e maridos. Também existem vários casos de mulheres que saem da situação de prostituição após encontrar uma pessoa, geralmente homem, por quem se apaixona. A esses apelidamos de “salvadores”. Pois são eles, que dentro da moral judaico-cristiana “salvam” as mulheres da prostituição. Essas relações amorosas são bastante complicadas, uma vez que já iniciam com um salvador (o príncipe) e a pecadora pervertida (a mulher), em uma situação de desigualdade de poder em que a ex-pervertida está sempre pagando o seu pecado ao seu salvador. Seja cuidando dele, limpando a casa, fazendo comida, tendo relações sexuais quando ele deseja. Alguns casos falam de um isolamento da mulher. Passa a morar afastada da cidade, sem contato com visinh@s ou amig@s. Outros apontam para relações de estremo ciúmes por parte do homem, levando muitas vezes a violência física e a morte da mulher, já que a psíquica, nesses casos já existe, mesmo não sendo calculada. O número de assassinatos e violência de gênero em casais em que o homem é espanhol e a mulher é estrangeiras são alarmantes.
Então, nos perguntamos, mas se a mulher já está casada significa que ela já tem papéis e consequentemente tem acesso a diversos direitos, então porque ela não sai dessa situação? A resposta a essa pergunta não é fácil. Pois a vida está cheia de intercessões que a deixa complexa. Alguns pontos importantes se devem ter em conta não para responder a pergunta, mas para entender a complexidade da situação para, então, poder tentar ajudar a essas mulheres a saírem dessa situação de opressão e violência. Um deles é a melhora na condição de vida que muitas mulheres tem ao se casarem com um espanhol na Espanha, nesse caso. Por exemplo, uma mulher que sai do Brasil para tentar melhorar de vida num país distante, em uma situação de prostituição, o que muitas vezes, não a exercia em seu país de origem. Ao se casar, encontrar o seu “salvador”, seu príncipe, coloca sobre ele todas as expectativas de um relacionamento de conto de fadas. De repente, se vê presa emocionalmente a ele. Além disso, passa a morar em uma casa bonita, com eletrodomésticos que muitas vezes nunca teve (geladeira, fogão, maquina de lavar, secadora, micro-ondas, secador de cabelo, televisão), calefação, água encanada, comida e as vezes ainda ter a possibilidade de mandar dinheiro para os familiares2. Passa a ter uma vida estável financeiramente, mas em troca, muitas vezes, de um isolamento, de violência psicológica, emocional e até física.
Sair desse relacionamento pode ser perigoso para a sua família e para ela mesma. Ameaças são comuns. Para onde ela vai? Voltar para a prostituição? A quem ela pode acudir se a rede social que ela tem muitas vezes está em sua mesma situação, ou não pode ou simplesmente não quer pois tem vantagens sobre essa situação. A polícia nem sempre é uma alternativa fiável para elas, diante das experiências que teve. Ou, simplesmente, o casamento não acontece no papel e ela se encontra nas mesmas condições de quando chegou, imigrante irregular.
Essa situação também passa com as mulheres que exercem a prostituição nos seus países com clientes estrangeiros. Cria-se a ilusão de encontrar entre os seus clientes, o seu príncipe encantado que vai levá-la a terras distantes para viver uma linda história de amor e sair da pobreza em que vive. O que na maioria das vezes não acontece.
Outra questão é a humilhação de voltar para casa sem os objetivos conquistados. Sem um príncipe, sem dinheiro e arrasada emocionalmente e fisicamente. Muitas vezes as mulheres fazem de tudo para não voltarem ao seu país quando “fracassam”. O processo de deportação também é doloroso por esse motivo. Voltam com o estigma de fracassadas, sem expectativas e envergonhadas , inclusive com um sentimento de culpa.
A prostituição na Espanha, assim como no Brasil, é permitida, e também discriminada, mas bastante procurada. Em Santiago a maioria da prostituição se faz dentro de clubes. Nada mais do que bares com música alta, painéis de mulheres nuas pelas paredes e as prostitutas. A qualidade do ambiente varia muito. Nem todos têm quartos para serem usados nos programas. Em alguns, as mulheres dormem e comem no próprio club, em outros somente comem e em outros somente trabalham. Eles estão localizados nas estradas que dão acesso a cidade, podendo chegar apenas de carro. Os maiores estão bem sinalizados com placas coloridas e piscantes, os menores tem luzes vermelhas na porta. Dois “clubs” localizados na cidade de Santiago estão em condições terríveis, são escuros, com muita umidade, sem qualquer identificação. Esses estão na rua onde antes era famosa pelos clubs de prostituição que havia, restando hoje apenas esses. Um outro club dentro cidade acompanha o nível dos localizados nas estradas, bem sinalizados, grandes, com música, estando próximo a estação de ônibus.
Também existe a prostituição de rua, embora nunca tenha visto e a “prostituição de piso”, em que a prostituta está sozinha em um apartamento e o cliente marca com ela. Esses últimos geralmente são divulgados, ou melhor, publicizados nos jornais. Em uma parte do jornal como se fosse os classificados, onde estão os anúncios de mulheres para serviços sexuais. Esse comércio gera milhões de euros para os jornais todos os anos, o que em alguns casos fica difícil se sustentar sem eles.
Nos clubs de prostituição a recepção das mulheres ao projeto da Organização que distribui preservativos varia muito. Isso tem relação com a receptividade da direção do club. Se @ don@ não vê problemas na atividade, a relação é boa e podemos conversar com elas, dizer que a organização existe e que se elas tem algum problema, seja qual for, que elas tem onde acudir. A organização tem advogadas, assistente sociais, psicólogas, casa de acorrida, oferece cursos, é fonte de informação e ajuda na busca de registros e assistência sanitária para as queiram ou não continuar na prostituição. Para @s don@s que vêem algum problema na atividade, ou não nos deixam entrar no club ou nos permite apenas distribuir os preservativos nos quais levam um cartão com o endereço e telefone da organização.
Nesse trabalho que chamam de “traballo de rua” visitamos os clubes a cada 45 dias. Tempo suficiente para que cheguem novas mulheres. Assim, sempre existem as novatas. As novidades para os clientes. Existem ocasiões em que todas são novas. E existe ainda as que nos conhece de outros clubes. Isso quer dizer que elas de tempos em tempos vão mudando de clubes. Dizem que os próprios clubs fazem as transações e outras vezes elas mesmas mudam por vontade própria. É comum ver que elas mudam também de cidades.
Agora vejamos o outro lado da história. Esse lado que pouco conhecemos, a dos clientes. Quem são? Homens? Qual é a média de idade? São casados, solteiros, divorciados, viúvos? Com que frequência vão aos clubs? Porque procuram a prostituição? Quais suas preferencias? O que eles pensam sobre a prostituição? Suportariam ter uma filha, irmã ou mãe na prostituição? E os homens que tem familiares na prostituição, fazem o uso da prostituição? Tem as mesmas ideias que outro homem que não tem? E se não existissem os clientes? Existiria a prostituição?
Me pergunto se existisse a igualdade de poder, de oportunidades, e nas relações de gênero, existiria a prostituição. O mercado do sexo é um dos maiores e mais lucrativos, estando atras do trafico de armas e do trafico de drogas. Estando esses três bem relacionados. Não é por acaso que países em situação de guerra ou pós-guerra estão entre os que mais expulsam as mulheres para o exercício da prostituição em terras distantes. São os países onde a prostituição, o trafico de pessoas ocorrem de maneira mais permissiva.
Porque a prostituição nos países ricos é feita pelas imigrantes em sua maioria em situação irregular e não pelas pessoas da própria nação? As desigualdades fazem com que os excluídos de direitos e poder se submetam a coisas impensáveis. A ganancia, o excesso de poder faz das outras de sentirem superiores e com direito a explorar as outras. Por isso me pergunto, porque as mulheres não são clientes da prostituição? Porque somente elas são quem se prostitui. E quando os homens o são, porque, em sua maioria, os clientes também são homens?
texto nao acabado
1Debate sobre prostituición y trafico internacional de mujeres. Reflexiones desde una perspectiva de género. Médicos del mundo. Mayo 2003
2Aí @s machistas pensam, “haa então é vida fácil! É só ela transar com ele quando ele quiser, nada mais do que ela fazia quando era prostituta, e ainda tem esse luxo todo para desfrutar. Ela deveria era agradecer” Mas esquecem do que elas tem que dar em troca, e do sofrimento que é estar refém de alguém.